Professor Pé Grande

Meu velho, meu pai, e eu estávamos conversando um dia sobre sua juventude, e ele me contou que, quando mais novo, jogava capoeira em um grupo chamado Meninos de Angola, em Uberaba, Minas Gerais.

Acho que, de alguma forma, sempre tive um apego especial por essa arte. Talvez essa ligação já estivesse dentro de mim antes mesmo de eu entender o que a capoeira significava.

Em 2005, entrei no Dom Bosco e fui para a primeira turma. Naquela época, as turmas eram divididas por faixa etária. Eu tinha apenas 6 anos de idade quando conheci a capoeira.

Foi quando surgiu um novo projeto de oficina, encabeçado pelo Mestre Murruga, que naquela época ainda era Aluno Murruga. Ele deu o primeiro passo, o start de tudo aquilo que viria a se tornar tão importante para mim.

Eu fiz parte da primeira turma da Oficina do Grupo de Capoeira 2 de Ouros.

Influenciado pelas histórias que já ouvia do meu pai e, agora, tendo a oportunidade de conhecer a capoeira de perto, entrei de cabeça. Eu queria aprender, conhecer e entender aquele universo. Só não imaginava que aquilo que começava como uma oficina se tornaria, com o passar dos anos, parte do meu DNA.

Em 2005 ainda não tivemos batizado, pois a turma era muito nova. Mas, no ano seguinte, veio a segunda turma. Foi quando conheci meus outros irmãos de capoeira, Carranquinha e 6 Dedos.

A partir dali, começamos a construir nossa história. E, como toda caminhada, passamos por altos e baixos, momentos bons e difíceis, mas sempre seguindo em frente.

Em determinado momento, o Mestre Saúva assumiu o lugar do Mestre Murruga e deu continuidade à oficina no CCA. Foi um espetáculo. Vieram as atividades, os treinos, os desafios e aquela vontade de sempre querer mais.

Posteriormente, o Mestre Saúva também deixou o espaço do CCA. Mas não ficamos sem ninguém. O Mestre Murruga voltou como educador e retomou os treinos na oficina.

E acho que foi daí em diante que nossa relação começou a ganhar ainda mais força.

De lá para cá, construímos uma relação que vai muito além da capoeira. Uma relação de pai e filho, de professor e aluno, de Mestre e discípulo, mas também de amigos.

Tenho no Mestre Murruga uma referência enorme. Muitos dos valores que carrego hoje foram consolidados com a ajuda dele. Parte da construção do homem que sou — e até mesmo do reflexo que hoje consigo enxergar em mim — vem, em grande parte, daquilo que ele me ensinou.

Às vezes como Professor.

Às vezes como Mestre.

Às vezes como pai.

E muitas vezes como amigo.

A capoeira entrou na minha vida quando eu tinha apenas 6 anos. Naquele momento, eu não fazia ideia do tamanho da história que estava começando.

Hoje, olhando para trás, percebo que não foi apenas uma atividade, uma oficina ou um esporte. Foi uma parte fundamental da minha formação.

Desde então, não consigo mais viver sem a capoeira.

Ela é algo de que eu preciso. É o que me acalma quando a cabeça está cheia, o que me fortalece quando os dias são difíceis e o que me lembra de onde vim e de tudo que construí até aqui.

A capoeira se tornou parte de mim.

E talvez seja justamente isso que meu pai já soubesse, quando me contou, tantos anos atrás, que também jogava capoeira quando era jovem.

Talvez a capoeira tenha começado na minha família antes mesmo de eu nascer.

Eu apenas tive a sorte de encontrá-la aos 6 anos de idade — e nunca mais deixá-la.

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